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MEU ENCONTRO COM A SANTA DA BAHIA SANTA DULCE DOS POBRES – Por Valter Pereira

22 out 2019 • por Katy Cardoso • 0 Comentários

Pelos idos do começo de 1980, mais ou menos,comecei a frequentar na época, o primeiro e antigo hospital da Irmã DULCE .
A conhecia de nome e pelo seus feitos de ajuda, amor, carinho, devoção e amparo para a população pobre e desvalida da Bahia.

Era uma façanha hercúlea manter aquela obra aberta e funcionando bem 24 horas por dia sete vezes por semana. Funcionava dos dois lados da Avenida Dendezeiros, na cidade baixa, vizinha ao lago de Roma, ao lado do ex cine Roma, no bairro do Bonfim. De um lado, do lado do ex cine Roma uma casa com uma pequena capela na frente, os aposentos da irmã e algumas alas de internamento . Ao lado um pequeno prédio de um andar onde ficava um dormitório dos soldados , dos estudantes de medicina da irmã. Eram jovens ávidos pelo saber e por ajudar a tocar aquela grande obra. Era uma espécie de internato médico com muito dificuldade para se conseguir uma vaga na equipe. Todos queriam, poucos conseguiam, era enfim uma grande escola.

A Irmã DULCE dava casa, comida, roupa lavada, amor, compaixão, palavras ternas e doces e muito mais muito trabalho . DULCE era doce e terna para todos, indistintamente, mas dura também quando preciso. Para administrar tudo aquilo era preciso ternura, amor mais um pulso forte. “Era preciso endurecer sem perder a ternura jamais”. Era uma grande conciliadora, grande empreendedora e uma grande “pidona” no bom sentido é claro. Tudo por amor ao próximo nada para ela . Era uma mulher pragmática, destemida e organizada nunca pediu nada para ela, só para seus pobres , doentes e enjeitados das ruas da Bahia. Nada fugia do seu olhar, do seu arguto bom senso e dos seus “sete sentidos”.

A força daquela mulher franzina, pequena,fisicamente “frágil”, encurvada, passinhos curtos era extrema, excepcional . Conhecia a todos, dos pequenos aos grandes da Bahia. Todas as portas eram abertas para ela, da Governadoria, prefeitura aos banqueiros, empresários, comerciantes, feirantes e gente simples e anônimas do povo só de ouvir e pronunciar o nome DULCE, Irmã DULCE porta e sorrisos se abriam.

A irmã DULCE está aí : esta era a senha para as portas serem abertas e ser recebida. Mas não foi sempre assim, no começo da sua jornada ouviu muito xingamentos, insultos, cusparadas, chá de cadeira e de espera nas ante sala dos palácios e dos grandes escritórios de empreendimentos; a única coisa que ela não aceitava era um não, vencia pelo cansaço e insistência, sempre saia com um sim por menor que fosse o pedido ou a ajuda para seus filhos, os filhos da rua, da amargura, do desespero e da miséria. A irmã era o ultimo refúgio, a ultima cidadela a quem procurar e ter certeza de ser servido.

Aquela mulher era um baluarte, uma fortaleza, só a sua presença mudava tudo. Dela emanava uma força, uma aura, uma energia cósmica descomunal. Sua força moral, de amor, caridade eram estupendos, excepcionais. A sua presença dava ao local, ao ar uma
força, uma chama celestial como se os anjos, santos e orixás do bem e do amor a acompanhasse 24 horas por dia.

E lá ia aquela mulher extraordinária dia a dia pelas ruas, feiras, ladeiras e palácios da Bahia a pedir, a pedir incansavelmente para manter sua obra viva, sem dia sem hora para o descanso do seu corpo físico . Um ser humano como poucos. Como ela mesmo dizia :
“sou só o instrumento que manda mesmo é Deus, Jesus, os anjos e sua hóstia sagrada. “Irmã DULCE usava a máxima do apóstolo Paulo “não sou eu quem vivo, quem vive em mim é Cristo, é Jesus.”

Do outro lado da rua ficava o resto do hospital, um prédio tacanho de dois andares, tacanho pelo muito que fazia pela comunidade. Na rua entre um prédio e outro tinha um sinaleira e uma faixa de pedestre que parecia não, era uma extensão do hospital que até o trânsito respeitava. Daquele lado ficava o restante do hospital com um centro cirúrgico, ambulatório, consultórios, laboratórios e enfermaria com muitos leitos, duplos a maioria com colchões embaixo das camas para dar mais espaço para internamento do povo doente e sofrido da Bahia. Era mais uma ideia, uma engenharia, uma luz , como grande empreendedora que era, para ampliar o atendimento, ajudar e aumentar a solidariedade humana. Ela mandava colocar plásticos em volta dos colchões das cama de cima para proteger os pacientes que ficavam nos colchões embaixo das camas. Ninguém poderia voltar sem ser atendido ou ser internado, caso fosse preciso. Está era a lei, um dos lemas máximos da irmã.

Quando as pessoas chegavam sujos, maltrapilhos sem esperança alguma a primeira coisa que a irmã fazia era cortar os cabelos , fazer a barba, banho, sabão, toalha e roupa limpa; isto era muito importante para aumentar ou começar a auto estima dos pacientes, dava dignidade a eles, respeito e esperança que dias melhores viriam. Os resultados eram surpreendentes as vezes melhoravam 50 % das suas doenças e mazelas.

Dr. Argemiro Pereira com Irmã Dulce

Conheci médicos e pessoas abnegadas que vestiam a camisa da obra e sua assistência: Dulcinha sua irmã, Maria Rita sua sobrinha, irmã Olívia e muitos outros além dos médicos como: Dr Menon grande médico e cirurgião, Dr Taciano Campos outro grande médico, cirurgião e humanista amigo e administrador do hospital, além de Dr. Almiro Machado pneumologista que cuidou da irmã até a sua morte e outros, muitos outros. Existiam muitos internos, terminado o curso de medicina com sonhos, muitos sonhos, muita vontade de aprender, de trabalhar e ajudar a que quer que fosse, que batessem a sua porta, a hora que fosse: Figuras como dr Pedro “pipeta”, Dr. Antônio Rodrigues (Tonho gordinha ), Dr. Argemiro Pereira, Dr Paulo César, Dr Antônio Argolo e muitos outros.

Fique pra valer uns seis meses com voluntário vi e convive muito com a irmã. Era um prazer uma delícia um reconforto na alma vê-la, sentir a sua presença forte, marcante, altiva, com um magnetismo forte, uma energia pura, poderosa. Desses encontros, um não posso esquecer, nem que minha vida dure mil anos. Foi singelo e simples como ela mas que deixaram ondas, energias fortes e eternas.

No meu primeiro dia de trabalho ela apareceu naquele passinho leve tranquilo atrás de mim bateu no meu ombro. Eu virei surpreso com aquela visita então eu disso :
– Olá irmã como vai ? A senhora precisa de alguma coisa ?
– Preciso sim meu filho. Vim aqui hoje no seu primeiro dia para lhe dar um presente.
– Um presente irmã ? Ó irmã muito obrigado, não tenho palavras. Não precisava .
– Precisava sim, e estou vendo que precisava mesmo, sua calça está muito puída por isso lhe trouxe está calça branca para você usar. Tome é sua, experimente e veja se dá, qualquer coisa me procure.
E antes de sair ela disse :
– Ah! ia me esquecendo! você está convidado para o nosso almoço com todos os internos e toda vez que você vir poderá repetir sempre.
– Obrigado irmã Deus te abençoe e te ilumine sempre.

Está era irmã Dulce simples justa e direta. Parece que ela tinha adivinhado a minha situação. Precisava de algum lugar para comer, quase sempre estava sem nenhum dinheiro naquela época, na época da minha formatura, e os almoços na irmã não eram almoços eram realmente banquetes com uma mesa grande e muita gente parecendo a santa ceia . Não pedi nada. Ela me deu de comer e de vestir, isto são coisas que não se esquece. Tive outros encontros com ela principalmente na capelinha mas este primeiro não esqueci.
Ah! A calça durou mais de três anos e era a única branca que tive na época.

Este era a irmã DULCE, hoje a santa DULCE dos pobres, para mim já era santa antes de ter sido. Morreu como viveu pobre e humilde. Se doou, de corpo e alma pelos seus filhos desvalido da sorte.

Salve a nossa santa, O ANJO BOM DA BAHIA, respeitada e reverenciada por todos : padres, devotos, leigos, ateus, pastores, pai e mães de santo por todos os santos e orixás da nossa querida Bahia.

Bahia, Baianos, das suas 375 igrejas toquem todos os seus sinos, façam suas orações, em todos os terreiros, toquem todos os seus atabaques em homenagem a grandeza dessa santa maior da Bahia que uniu a todos nós, pretos, brancos, mulatos, cafuzos, sarara miolos, e todas as religiões: do catolicismo passando pelo espiritismo até o candomblé.

Axé irmã que o seu grande milagre, que é a continuação das suas obras, perdure por anos sem fim , que os seus exemplos e sua humildade cubra a todos nós, meros pecadores da sua Bahia e perpetue a sua obra, AMÉM!

Que relato mais especial! Tive que compartilhar! Me emocionei que tanta ternura e carinho vindo da nossa SANTA DULCE. Obrigada Dr. Valter Pereira, irmão do grande Dr. Argemiro Pereira, por nos contar uma história real e linda!

Valter Pereira – Foto Facebook

Post do Facebook: Valter Pereira

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